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FELÍCIO ROCHO
O Novembro Azul chega anualmente para colorir prédios e campanhas de conscientização, mas, na prática médica diária, percebo que o mês ainda esbarra em barreiras culturais difíceis de transpor. O câncer de próstata continua sendo o segundo tumor mais incidente entre os homens no Brasil, ficando atrás apenas dos tumores de pele não melanoma, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer.
No entanto, o que mais me preocupa nos consultórios não é a agressividade da doença em si, mas a relutância masculina em buscar a avaliação preventiva de rotina. Ainda carregamos o peso de tabus históricos que associam o cuidado com a saúde e a fragilidade, fazendo com que muitos pacientes cheguem ao diagnóstico em estágios avançados, quando as chances de cura plena diminuem consideravelmente.
A principal ferramenta para mudar essa realidade permanece sendo a detecção precoce por meio do exame de toque retal e da dosagem do antígeno prostático específico, o famoso PSA. Diferente do que muitos imaginam, esses dois exames não se excluem, mas se complementam, aumentando significativamente a precisão diagnóstica. Eles devem ser realizados em conjunto a partir dos cinquenta anos nos homens em geral ou dos quarenta e cinco anos, caso haja histórico familiar da doença ou fatores de risco associados, como a raça negra. A resistência em realizar esses exames por puro receio ou desinformação custa vidas que poderiam ser salvas com uma simples consulta anual. É urgente que a sociedade compreenda que a avaliação urológica não tira a masculinidade de ninguém; pelo contrário, é um ato de responsabilidade com a própria vida e com aqueles que amamos.
Quando o diagnóstico de câncer de próstata é confirmado, o fantasma dos efeitos colaterais tradicionais, como a incontinência urinária e a disfunção erétil, costuma assustar os pacientes e paralisar as decisões terapêuticas. Contudo, a medicina tem caminhado a passos largos na direção de tratamentos cada vez mais precisos e menos invasivos. Entre as inovações tecnológicas de maior impacto na urologia contemporânea, a cirurgia robótica se destaca como um verdadeiro marco na preservação da qualidade de vida. Através de plataformas de alta tecnologia, o cirurgião comanda braços robóticos com visão tridimensional ampliada e alta definição, o que permite movimentos milimétricos dentro da pelve masculina.
Essa evolução técnica traz vantagens clínicas inegáveis para o paciente no pós-operatório, reduzindo o tempo de internação hospitalar, o sangramento intraoperatório e o desconforto geral. O grande diferencial da abordagem robótica reside na sua capacidade de enxergar e preservar as delicadas estruturas nervosas e vasculares responsáveis pela ereção, além de otimizar a reconstrução do esfíncter urinário para uma recuperação mais rápida do controle da urina. É evidente que a tecnologia não substitui a experiência e a capacitação técnica do cirurgião, mas ela atua como uma extensão altamente qualificada das mãos humanas, transformando uma cirurgia oncológica complexa em um procedimento de altíssima precisão.
Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos que celebramos no cenário médico atual, o maior desafio na luta contra o câncer de próstata continua fora dos hospitais. Precisamos transformar o Novembro Azul em um diálogo contínuo de doze meses por ano, quebrando o silêncio que envolve a saúde do homem e garantindo acesso igualitário aos exames de rastreio na rede pública de saúde. Somente unindo a conscientização da população, a quebra de preconceitos culturais e o acesso a tratamentos de ponta como a cirurgia robótica é que conseguiremos transformar o panorama oncológico do nosso país e devolver aos pacientes não apenas a cura, mas a dignidade plena após a doença.
Escrito por: Dr. Denilson Santos Custódio | Urologista do Hospital Felício Rocho | Pós Graduado pela Cleveland Clinic - USA
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