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NOTÍCIAS

FELÍCIO ROCHO

O que precisamos saber sobre as epilepsias?
09 de fevereiro de 2026 Saúde

Você sabia que a epilepsia está entre as doenças neurológicas crônicas mais comuns? Apesar de ser uma condição crônica, assim como tantas outras, e de possuir tratamento eficaz, as pessoas que convivem com epilepsia ainda enfrentam intenso preconceito e diversas dificuldades sociais, muitas vezes decorrentes do desconhecimento e do estigma associados à doença.

 

Os registros mais antigos da epilepsia remontam a períodos anteriores a época de Cristo. Ao longo da história, essa condição neurológica foi interpretada de diferentes formas, o que contribuiu para a disseminação de conceitos errôneos e equívocos que persistem até os dias atuais. Torna-se, portanto, fundamental ampliar o conhecimento sobre a epilepsia e mudar o curso dessa história.

 

Estima-se que cerca de 70 milhões de pessoas vivam com epilepsia em todo o mundo. As epilepsias podem ter início em qualquer fase da vida, porém é mais comum que as primeiras crises ocorram na infância e após os 60 anos de idade.

 

O principal sintoma da epilepsia é a ocorrência de crises epilépticas. A International League Against Epilepsy (ILAE) define a crise epiléptica como um conjunto de sinais e sintomas decorrentes de descargas neuronais síncronas e anormais. Para facilitar o entendimento, pode-se comparar a crise epiléptica a um “curto-circuito” na central elétrica do nosso corpo — o cérebro.

 

É importante destacar que nem toda crise epiléptica significa epilepsia. Cerca de 10% da população apresentará ao menos uma crise epiléptica ao longo da vida, porém apenas aproximadamente 50% dessas pessoas terão crises recorrentes, o que caracteriza o diagnóstico da doença. As crises epilépticas também podem ocorrer em situações agudas que desestabilizam a atividade elétrica cerebral, como alterações nos níveis de glicose no sangue, uso de determinados medicamentos, consumo excessivo ou abstinência de álcool, além do uso de drogas. Nesses casos, não se trata de epilepsia, mas de uma instabilidade cerebral associada a esses fatores.

 

Considerando as múltiplas funções do cérebro, como coordenação motora, memória, planejamento, visão e audição, e o fato de que esse “curto-circuito” pode se iniciar em qualquer região cerebral, é possível compreender a grande variedade de manifestações das crises epilépticas. Dessa forma, as crises não se resumem apenas às convulsões, caracterizadas por abalos musculares generalizados. Existem crises em que o paciente apresenta perda de consciência, não responde aos estímulos, perde o contato com o meio ou manifesta alterações visuais, zumbidos, confusão mental, bem como espasmos rápidos semelhantes a choques.

 

Quando diagnosticada corretamente e iniciado o tratamento adequado, cerca de 70% das epilepsias podem ser controladas com o uso de medicamentos anticrise (conhecidos como MACs), que constituem o pilar do tratamento. Entretanto, aproximadamente 30% dos pacientes continuam apresentando crises apesar do uso correto desses medicamentos. Nesses casos, outras abordagens terapêuticas devem ser consideradas, como o tratamento cirúrgico.

 

Para avaliar a possibilidade de cirurgia, é necessária uma investigação criteriosa e minuciosa, conduzida por uma equipe experiente no tratamento cirúrgico das epilepsias. O primeiro passo consiste em identificar a rede de neurônios envolvida na geração das crises. Um exame fundamental nesse processo é o videoeletroencefalograma (VEEG), no qual o paciente permanece internado para que suas crises sejam registradas simultaneamente por vídeo e pela captação da atividade elétrica cerebral.

 

A investigação inclui ainda a realização de ressonância magnética cerebral com protocolo específico para epilepsia, além de avaliação neuropsicológica, que analisa memória, raciocínio, atenção e aspectos relacionados ao humor e à ansiedade. Em alguns casos, exames complementares, como o PET scan cerebral, podem ser necessários. Após a conclusão dessas etapas, o caso é discutido em reunião clínica multidisciplinar, na qual são avaliadas todas as possibilidades terapêuticas e definida a proposta cirúrgica.

 

Nos casos em que os MACs não controlam as crises e não é possível identificar com precisão a área cerebral responsável por sua origem, os tratamentos de neuromodulação, como a estimulação do nervo vago ou a implantação de eletrodos cerebrais profundos, podem auxiliar na redução da frequência e intensidade das crises.

 

A epilepsia não é uma doença única e igual para todos. Existem diversos tipos de epilepsias, com diferentes idades de início, causas, manifestações clínicas, tratamentos e prognósticos. Além disso, outras condições podem ser confundidas com epilepsia. Por isso, é essencial a avaliação por profissionais experientes e especializados no estudo dessa doença.

 

Uma vez que as crises estejam controladas, é possível — e fundamental — praticar esportes, trabalhar, planejar a formação de uma família e buscar qualidade de vida. O estigma associado à palavra “epilepsia” deve ser superado, dando lugar à informação, ao conhecimento e ao tratamento adequado.